terça-feira, 20 de outubro de 2009

Calvinismo e Arminianismo - perspectivas pessoais - (1)

Estou tendo a grata oportunidade de ministrar a disciplina de Teologia Própria, ou “Uma introdução ao estudo do conhecimento de Deus” em uma nascente instituição teológica da qual muito me orgulho de participar, visto ser um espaço diretamente ligado à igreja (ou a várias igrejas).

Trata-se do curso de “Líderes-Servos”, ministrado na Igreja Evangélica Manaim; um curso destinado a pessoas que querem ter um breve preparo teológico para trabalhar em suas próprias comunidades de fé.

E como em todo curso ministrado sobre Deus, sua natureza e suas obras, não poderia deixar de faltar o assunto relativo à soberania de Deus e o livre-arbítrio humano; ou seja, a velha discussão “calvinismo X arminianismo” (algum aluno ou aluna sempre acaba tocando neste delicado assunto).

Para quem não sabe, muito resumidamente, o calvinismo é aquela doutrina, também dita reformada, que diz respeito à idéia de que o salvo é alguém predestinado por Deus desde os tempos eternos, e que será indubitavelmente salvo. Os demais, os que não foram eleitos, estarão irremediavelmente perdidos, visto que, se não fosse a graça de Deus, todos estariam condenados. Deus, segundo esta perspectiva, não tem nenhuma obrigação de salvar nem um ser humano sequer; se o faz, é pelo puro beneplácito da sua maravilhosa graça. E para “fechar” o sistema calvinista, obviamente, além de entendermos que o ser humano é completamente depravado, ao ponto de não ter sequer a capacidade entre escolher servir ou não a Deus, entende-se a doutrina da graça limitada, que resumidamente quer dizer que ela é eficaz tão somente para os eleitos. O sacrifício de Cristo, nesta perspectiva, é suficiente para salvar todo o mundo, mas eficiente somente para salvar os que forem chamados pela graça irresistível de Deus.

O arminianismo é de caráter totalmente diverso. Esta doutrina, que recebe o seu nome de Jacob Armínius, ensina que, não obstante o ser humano ser um ente caído tem a capacidade de rejeitar ou receber a graça de Deus. Que o sacrifício de Cristo é por todos, e que há a possibilidade real de todos, ou de ninguém ser salvo. Que se há predestinação, ela esta em Cristo Jesus, e, é exercendo tal fé em Cristo, que alguém se torna ou não um predestinado. Que a graça é oferecida em maior ou menor medida a todos os seres humanos, que a rejeitam ou a recebem. Tal doutrina também é acusada por muitos de ser um “semi-pelagianismo”, pois ensina a cooperação, em algum grau, do próprio ser humano, em não rejeitar a graça e o evangelho, para poder ser salvo (Pelágio ensinava que, não havia necessidade de nenhuma intervenção divina para que o ser humano acreditasse ou não no evangelho - Armínio ensinava que a graça é o princípio da salvação; entretanto, que havia uma necessidade de uma resposta humana a tal graça).

Eu mesmo já transitei entre as duas doutrinas. Em um primeiro momento, todos somos arminianianos, visto ninguém conseguir imaginar uma doutrina como a calvinista logo de cara (e os calvinistas se orgulham disso). Nenhum novo convertido, se não for informado sobre o assunto, imaginará que Deus possa escolher alguns e rejeitar alguns eternamente. Quando me ensinaram pela primeira vez esta doutrina, fiquei realmente chocado e escandalizado. Um dos textos utilizado por um amigo meu para tentar me convencer foi o de Romanos 9.22-23, que diz:

“E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória, nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória...”

E diante de minha indignação diante de tal perspectiva, meu ilustre amigo leu:

“Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso”? (Romanos 9.21-22)

Ou seja, quem era eu para questionar Deus?

Segundo tal ensinamento, e todo o conjunto da doutrina calvinista, quem é o homem para questionar Deus? Segundo eles, o calvinismo é nada mais, nada menos, a doutrina que realmente coloca a Deus radicalmente no centro do comando de tudo. É o “Teocentrismo” em sua forma mais pura e esplendorosa, que humilha completamente o orgulho humano, colocando-o exclusivamente sob a dependência da soberania divina, seja para o bem, seja para o mal.

(continua...)

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